Solidão é um gosto amargo, um vazio que não se preenche, uma ausência que dilacera, uma fuga que apavora, um sentir que desequilibra. A alma do homem sofre com essa tal solidão, que não se apresenta, simplesmente se instala e dá as ordens!
É um fel partilhado consigo mesmo, que corrói as entranhas de um ser ferido, desesperado pela usurpação da essência de existir. As perdas irreparáveis dos desencontros, das desilusões, das faltas, tudo isso é estaticamente observado no espaço baldio da lembrança.
São momentos de agonia, de asfixia em meio a tantas presenças ausentes, sem relevância alguma. Quanto mais obscuro é o ambiente, em maior silêncio se afunda, esquivando-se da realidade...
Na profunda angústia que aflige e consome a alma, surge uma suave voz...
De onde viria? Quem se atreveria a interromper o sombrio instante dessa solidão? Quem ousaria abrir as cortinas desse lugar de refúgio? Quem?!
Foi quando a última pergunta se misturou a um nome...O Eterno!
O impacto causado por este ecoar foi tão forte que estremeceu as bases do adormecido ser. Não se tratava de uma voz qualquer, não era só mais um nome, estava incutido em algo inexplicável, sugeria um sentir que há muito se desejou, mas que em coisa alguma se encontrou!
Como uma espada afiada, assim a voz penetrou, rasgando o peito. Dissipou a escuridão e num assustador momento de tensão a solidão, aquela que dava as ordens havia muito, desesperou-se, diminuiu, até que de repente, ao fundo, surgiu uma imagem aspergida de sangue... A cruz!
Jamais foi presenciado um instante tão singular como aquele. Bastou que os olhos se fixassem àquela imagem pra que a doce voz que ecoava se tornasse no brilho radiante da estrela da alva, acolhendo em seus braços o que restara de mim. Desde então, meu ser foi imbuído do sentir mais precioso que o homem insaciávelmente anseia, a paz.